Entre homenagens simbólicas e discursos institucionais, o mês da mulher expõe um paradoxo inquietante: enquanto celebramos conquistas históricas femininas, os índices de violência de gênero seguem alarmantes. O problema talvez esteja menos na ausência de leis e mais na cultura que ainda naturaliza a violência.
Março chega carregado de simbolismo. O Dia Internacional da Mulher costuma ser marcado por homenagens, campanhas publicitárias e discursos que celebram conquistas femininas ao longo da história. E, de fato, há muito o que reconhecer. O direito ao voto, o acesso ampliado à educação, a presença crescente das mulheres em espaços de poder e a autonomia jurídica e econômica foram resultados de longos processos de mobilização social. Nenhum desses avanços surgiu espontaneamente.
Mas a realidade que acompanha mais um mês de março impõe um contraste incômodo.
As manchetes recentes continuam revelando uma sequência perturbadora de feminicídios, estupros e agressões domésticas. São crimes que ocorrem dentro de casa, em relações afetivas e familiares, muitas vezes praticados por companheiros ou ex-companheiros.
A violência de gênero não escolhe perfil. Ela atravessa classes sociais, idades e trajetórias de vida distintas. Trata-se de um fenômeno persistente, estrutural e profundamente enraizado.
Dados da ONU Mulheres indicam que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu algum tipo de violência física ou sexual ao longo da vida. No Brasil, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública continua registrando números elevados de feminicídio e violência doméstica.
Esses dados revelam um aspecto inquietante: ao contrário do que muitas vezes se imagina, o espaço mais perigoso para muitas mulheres não é a rua — é a própria casa.
Durante muito tempo, parte dessas violências foi suavizada por uma expressão ainda presente no imaginário social: o chamado “crime passional”. A ideia de que um assassinato teria sido motivado por amor ou por uma emoção descontrolada.
Essa narrativa não apenas distorce a realidade como também contribui para romantizar a violência praticada.
O feminicídio não é crime de amor. Trata-se de uma forma extrema de violência de gênero associada a dinâmicas de controle, posse e dominação sobre o corpo e a vida das mulheres.
A criminologia contemporânea tem criticado duramente o uso dessa expressão. Instituições como o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) apontam que ela obscurece a natureza estrutural desses crimes, que estão muito mais ligados a relações de poder e desigualdade de gênero do que a sentimentos afetivos.
O ordenamento jurídico brasileiro já reconhece essa especificidade. Desde 2015, o feminicídio passou a ser qualificadora do crime de homicídio no Código Penal, e a Lei Maria da Penha, de 2006, consolidou o reconhecimento da violência doméstica como violação de direitos humanos.
Esses avanços legais são fundamentais. Mas a persistência dos números revela uma realidade difícil de ignorar: o problema não se resolve apenas no campo da lei.
O direito penal atua, em grande parte, depois que o dano já ocorreu. A punição é necessária, mas não substitui aquilo que deveria estar no centro do debate: a prevenção.
Ainda assim, diante da sucessão de crimes que chocam a opinião pública, a orientação mais comum dirigida às mulheres costuma ser a da autoproteção: evitar determinados lugares, vestimentas, compartilhar localização, aprender defesa pessoal.
Essas estratégias podem ter utilidade. O problema surge quando passam a ocupar o centro do discurso público. Nesse momento, estabelece-se uma lógica silenciosa: a de que cabe às mulheres adaptar seu comportamento para sobreviver a um ambiente potencialmente violento.
Pouco se discute, por exemplo, como estamos educando os meninos que se tornarão os homens de amanhã.
A cultura que sustenta a desigualdade de gênero começa a se formar cedo, muitas vezes dentro das próprias casas. Ela aparece em piadas naturalizadas, em frases aparentemente banais e em pequenos gestos cotidianos que delimitam papéis sociais.
Nos últimos anos, esse processo ganhou uma nova dimensão com a influência das redes sociais. Comunidades digitais que difundem discursos misóginos, como movimentos associados à chamada redpill, têm alcançado jovens e adolescentes, apresentando ressentimento e hostilidade contra mulheres como interpretações legítimas das relações de gênero.
Quando essa formação ocorre em ambientes que reforçam desumanização e desigualdade, o resultado é a reprodução de uma cultura que normaliza a violência.
Enfrentar esse cenário exige mais do que respostas penais ou estratégias individuais de autoproteção. Exige políticas públicas consistentes, investimento em educação e disposição social para discutir as bases culturais que sustentam a violência de gênero.
Significa fortalecer redes de acolhimento às vítimas, promover campanhas educativas e, sobretudo, revisar os modelos de masculinidade que continuam sendo reproduzidos socialmente.
Enquanto essa reflexão não for enfrentada com a seriedade necessária, continuaremos reagindo a tragédias já consumadas, multiplicando estatísticas e oferecendo às mulheres estratégias de sobrevivência.
Talvez seja justamente esse o paradoxo que o mês de março revela.
Enquanto flores são distribuídas e homenagens são feitas, as estruturas culturais que sustentam a violência permanecem, em grande medida, intactas. Celebrar as conquistas das mulheres é necessário. Mas celebrar não pode significar ignorar os desafios que persistem.
Se o 8 de março pretende ter um significado real, ele precisa ser também um convite à responsabilidade coletiva e à transformação cultural.
E talvez a pergunta mais honesta que esse momento nos impõe seja esta: estamos realmente prevenindo a violência contra a mulher — ou apenas ensinando mulheres a sobreviver a ela?
Por Débora Garcia Duarte